A festa da Epifania tem sua origem na Igreja do Oriente. Diferentemente da Europa, no dia 6 de janeiro tanto no Egito como na Arábia se celebra o solstício, festejando o sol vitorioso com evocações místicas muito antigas.
Com a intenção de dar um sentido cristão a data, dizendo que Cristo demonstra ser a verdadeira luz, a Igreja começou a celebrar neste dia a Epifania do Senhor.
Assim como a festa de Natal no ocidente, a Epifania nasce contemporaneamente no Oriente como resposta da Igreja à celebração solar pagã que tentam substituir. Assim se explica que a Epifania no oriente se chama: Hagia phota , quer dizer, a santa luz.
A manifestação aos Reis Magos
A Epifania que mais comumente celebramos no Natal é a manifestação de Deus aos reis magos. Na festa de 06 de janeiro, comemoramos esta manifestação a toda humanidade por meio destes três homens.
Jesus é apresentado ao mundo pagão (na pessoa dos magos), para mostrar que o Menino veio para a salvação de todos, não só judeus, mas de todos os homens. Ele já tinha sido apresentado primeiro para a adoração dos judeus, na pessoa dos pastores de Belém.
Os Reis Magos eram astrônomos e, no âmbito de sua ciência, receberam a indicação sobre o nascimento do Messias. A partir da revelação, colocam-se a caminho movidos pelo único desejo: encontrar Jesus para adorá-lo. Ao encontrá-lo, os magos se dobram diante do Menino que não lhes fala nem dá nada.
Estes homens experimentados e sábios se prostram diante daquele Menino e, num ato de fé, reconhecem o senhorio do recém nascido. Expressaram tal reconhecimento no simbolismo dos presentes dados ao Salvador: com a mirra, reconheceram nele homem sofredor; sua realeza, manifestada no ouro e a sua Divindade, manifestada pelo incenso.
Quem eram esses homens?
Os reis magos eram reis (talvez apenas de uma pequena cidade, como era comum), mas que aguardavam a chegada do Messias, uma vez que a fé dos judeus se espalhou pela região.
Eram magos , isto é, astrólogos e não feiticeiros. Naquele tempo a palavra “mago” tinha esse sentido, confundindo-se também com os termos sábio e filósofo. Eles prescrutavam o firmamento e ficaram chocados com a presença de um novo astro.
De onde vieram os magos e o que buscavam, pouca gente sabe. Quanto ao nome deles: Baltazar, Gaspar e Melquior , a igreja não tem certeza dessa tradição. Vinham do Oriente e Baltazar, o mago negro talvez viesse de Sabá (terra misteriosa que seria o sul da Península Arábica ou, como querem os etíopes, a Abissínia). Simbolizam também as três únicas raças bíblicas, isto é, os “semitas”, “jafetitas” e “camitas”. Uma homenagem, pois, de todos os homens da Terra ao Rei dos Reis.
Até o ano de 474 d.C seus restos mortais estiveram na Constantinopla, a capital cristã mais importante no Oriente; em seguida foram trasladados para a catedral de Milão (Itália) e em 1164 foram trasladados para a cidade de Colônia (Alemanha), onde permanecem até nossos dias
A caminho
Os reis magos descobrem no firmamento a estrela do Messias, e se colocam diligentemente a caminho, vencendo muitas dificuldades. Diante do menino Jesus, se prostram, adoram e oferecem seus presentes: ouro, incenso e mirra. São fatos concretos que expressam sua alegre aceitação.
Ao longo da vida de Jesus e dos 21 séculos de cristianismo, milhares de atitudes manifestaram aceitação ou rejeição de Jesus , a favor ou contra a sua pessoa! Esta é uma chave de interpretação extraordinária para ver e entender a história Ocidental, mas também Oriental.
As quedas dos impérios, os grandes fenômenos de mudança de paradigma político, cultural ou social, com todas as conseqüências que acarreta, os grandes movimentos ideológicos, não recebem, na verdade, sua luz mais potente do "evento Cristo", desprezado por uns, aceito por outros? Todos, mas especialmente os historiadores, devem refletir sobre esta chave de interpretação histórica.
Jesus Cristo: sinal de contradição
Desde seu nascimento Jesus Cristo é um sinal de contradição para os homens.
Para uns, como os sábios que vêm do Oriente e para o apóstolo São Paulo, proveniente da diáspora, ele é o salvador. A epifania, é a manifestação fulgurante de seu mistério.
Para outros, que vivem em Jerusalém, capital do judaísmo, e que detêm a autoridade política (Herodes) ou religiosa do povo judeu (sacerdotes e mestres da lei), Jesus, o Messias, não é mais do que um rival perigoso (para Herodes) ou um simples objeto de ciência sagrada, a quem analisam com a objetividade de um especialista (sacerdotes, escribas).
Aceitação ou Desprezo
Diante de Jesus, já desde o seu nascimento e ao logo da sua vida, encontramos duas atitudes fundamentais dos homens diante de Jesus: aceitação ou desprezo .
Maria, José, os pastores, os Reis Magos, Simeão e a profetisa Ana aceitaram a realidade e o mistério que envolve Jesus de Nazaré.
O rei Herodes, os sacerdotes e mestres da lei têm uma postura de desprezo. Herodes fica nervoso, pergunta, mente sobre suas intenções, trama a morte da criança. Os sumos sacerdotes e os escribas, por sua vez, mostram seu conhecimento da Escritura, limitando-se a informar.
Queira o homem ou não, saiba ou não, Jesus divide a vida humana e a história .
Prestar atenção aos sinais de Deus
Os magos viram uma estrela nova no firmamento, e ela suscitou seu interesse e a sua busca. Devemos estar atentos, porque Deus vai semeando, dia após dia, muitos sinais da sua presença e do seu amor eficaz, na pequena realidade da nossa vida e nos diversos acontecimentos da história local, ou mundial.
Os mártires do século XX não são um sinal de Deus? Os milhões de jovens reunidos para as Jornadas Mundiais da Juventude não são uma palavra significativa que Deus nos dirige? E os movimentos eclesiais? E o renascer do espírito religioso e da ânsia de transcendência?...
Um mundo que tenha algo para oferecer a Deus. Todos os anos, os cristãos celebram o Natal, a Epifania. Deus nos é oferecido pequeno e impotente, sobre um presépio ou nas mãos de sua mãe, Maria.
Por outro lado, o que o mundo oferece para o Salvador? O que é que cada um de nós oferece? O mundo tem um pouco mais de paz para oferecer àquele que é chamado o "Príncipe da paz"? O mundo tem um pouco mais de solidariedade para com os mais necessitados, sejam indivíduos ou nações, para oferecer a quem quis se tornar plenamente solidário com os homens, menos no pecado? O mundo tem um pouco mais de pão para aqueles que têm fome, mais remédios para os que estão doentes, mais ajuda para a educação daqueles que não têm possibilidades, sabendo que "quando fazemos essas coisas a um destes pequeninos, fazemos para Deus"? O mundo tem um pouco mais de verdade, mais honestidade, mais justiça para aquele que é a Verdade, para aquele que é o Justo por excelência?
O mundo pode, a cada ano, oferecer muitas coisas boas a Deus. Cada um de nós é parte deste mundo, pode e deve contribuir para oferecer "algo" para Deus. Você pretende contribuir este ano com quê?
Epifania: A Unidade na Diversidade
“Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-Lo!” (Lc 2,2)
Os reis magos do Oriente, os pastores, José, Maria...pessoas de lugares diferentes e pessoas diferentes adoraram JESUS: era a diversidade na unidade: Deus! Sempre que falamos de “unidade” corremos o risco de sermos mal compreendidos. A idéia imediata que se tem por unidade é a de uma uniformidade monótona , a anulação de todas as diferenças individuais, um total nivelamento.
Sabe, este é um sistema de simples rótulos e simples exclusão. Quem não se adapta à medida geral é rotulado como extremista, reacionário ou herege. No entanto, a diversidade e a variedade dos caracteres das nações – os Reis Magos diferentes...– são a riqueza da humanidade.
Assim, também na Igreja una e universal não impede que possam coexistir em seu seio “diversos modos” de viver a única fé. As portas da Igreja estão abertas a todos: o cristianismo não pode reduzir-se a um mundo cultural ocidental, ou, oriental; a imagens e categorias mentais tipicamente deste ou daquele continente; a Igreja de Cristo não pode ser branca, negra nem amarela, como não pode ser proletária, burguesa ou capitalista: portas abertas a todos! Isto é EPIFANIA!
Não se pode prender-se intuitivamente à novidade ou à originalidade por si mesmas, mas deve antes verificar se não são elas apenas uma nova dimensão da fé no único Cristo: Isto é EPIFANIA!
Muitas experiências atuais, que às vezes escandalizam os defensores da uniformidade (não da unidade!), são o sinal do vigor da vida da Igreja: Isto é EPIFANIA!
JESUS nos dá o sentido de tudo: “Ama a Deus com todo o teu coração; amai-vos como eu vos amei (Cf Mc 12,30; Jo 13,34): Isto é EPIFANIA!
Assim, encontramos o sentido e a direção: essa é a estrela que devemos seguir para atingir nosso autêntico e único centro de unidade: Isto é EPIFANIA!
Percebeu?
(Dom Milton Santos – Arcebispo de Cuiabá)