O Vulto da Misericórdia

Fonte: CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil

Texto de Dom Pedro Carlos Cipollini - Bispo de Amparo (SP)

 

Um breve comentário à Bula do Ano Santo - Jubileu Extraordinário da Misericórdia

 

 

Introdução

O jubileu tem um significado todo especial no sentido de indicar a esperança de realização do tempo messiânico. No antigo Testamento ele é o “tempo da graça”. O jubileu proclamado pela bula do papa Francisco, publicada em 11.04.2015, vai iniciar-se em 08 de dezembro de 2015 e terá seu término em 20 de novembro de 2016. A abertura será em uma data significativa: os cinquenta anos de conclusão do Concílio Vaticano II (n.4). Será celebrado não só em Roma, mas também em todas as dioceses:“Estabeleço que no mesmo domingo, em cada Igreja Particular – na Catedral, que é a Igreja-Mãe para todos os fiéis – seja aberta igualmente, durante todo o ano Santo, uma Porta da Misericórdia...poderá também ser aberta  nos Santuários...” (n. 3).

 

O tema da Misericórdia tem raízes profundas na Igreja e o papa Francisco (um homem marcado pela misericórdia, que ele escolheu como lema episcopal), soube captá-las e inserir nestas raízes a proposta do Ano Santo. Há um fio transversal que perpassa todo o conteúdo da bula: primeiramente a própria história da salvação, toda ela pode ser lida na perspectiva da misericórdia. A criação é fruto da misericórdia: Deus que por pura bondade, comunica a vida e a coloca onde não há. A condescendência divina se faz sentir com a humanidade pecadora, à qual Deus faz a promessa de redenção e não de condenação. A própria Encarnação (kénosis) e redenção operada por Jesus, o Filho de Deus com a cruz e ressurreição. Enfim, toda a Palavra de Deus tem um pano de fundo que é a misericórdia.

Devemos considerar também a intuição do papa são João XXIII, o qual ao abrir o concílio Vaticano II, propõe uma Igreja que prefere usar a medicina da misericórdia. O papa Francisco menciona também o magistério do papa S. João Paulo II, o qual, com a encíclica “Dives in misericórdia” ensina que a missão da Igreja é proclamar a misericórdia divina que abrange a humanidade inteira. Por sinal ele canonizou Santa Faustina, santa da misericórdia, como a primeira santa do novo milênio no início do jubileu do ano 2000.

A Bula tem 25 itens. Em seguida destaco os tópicos principais dispostos em três partes: os fundamentos teológicos da Bula, a seguir sua aplicação à Igreja e por último algumas indicações práticas sobre como viver um itinerário espiritual de conversão.

1.       Fundamento trinitário

Logo no início o papa coloca o fundamento trinitário de tudo o que pretende dizer na Bula e creio que vale a pena transcrever, porque a meu ver, de certa forma, resume logo no início o seu conteúdo: “Misericórdia é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. Misericórdia é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado” (n.2).

A Bula com a qual o papa convoca o ano santo da misericórdia é profundamente cristocêntrica, a partir do seu título: Misericordiae Vultus (O vulto da misericórdia). Jesus é a imagem do Deus vivo (cf. Jo 14,9), ele é o rosto da misericórdia, a misericórdia encarnada: “Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai”(n. 1). A misericórdia não é algo abstrato, é um rosto para conhecer, contemplar e servir. O papa coloca como que um lema para o jubileu, um versículo do Evangelho de Lucas : “Misericordiosos como o Pai (Lc 6,36) é, pois, o lema do Ano Santo” (n.14). O papa invoca também o auxílio do Espírito Santo: “O Espírito Santo que conduz os passos dos crentes de forma a cooperarem para a obra da salvação realizada por Cristo, seja guia e apoio do povo de Deus a fim de o ajudar a contemplar o rosto da misericórdia”(n. 4).

A onipotência de Deus se manifesta no uso da misericórdia que não é fraqueza mas força divina. Paciência e Misericórdia é o binômio que aparece frequentemente no Antigo Testamento para descrever a natureza de Deus (cf. n.6). Eterna é a sua misericórdia canta o salmo 136. Jesus reza este salmo da misericórdia, nos recorda o papa (cf. n. 7). “Com o olhar fixo em Jesus e no seu rosto misericordioso, podemos individuar o amor da Santíssima Trindade. A  missão que Jesus recebeu do Pai, foi a de revelar o mistério do amor divino na sua plenitude” (n. 8). Após considerar a misericórdia como eixo da pregação de Jesus, como expressão e fruto do Reinado de Deus o papa conclui: “Na Sagrada Escritura a misericórdia é a palavra chave para indicar o agir de Deus para conosco” (n. 9).

2.       Igreja e Misericórdia

O papa afirma que a primeira verdade da Igreja é o amor de Cristo, que se expressa no perdão e na misericórdia (cf. n. 12).

Em um mundo no qual há oposição ao Deus de misericórdia (cf. n.11), a missão da Igreja é pregar e praticar a misericórdia: “A arquitrave que suporta a vida da Igreja é a misericórdia... A credibilidade da Igreja passa pela estrada do amor misericordioso e compassivo” (n.10). A Igreja testemunha uma vida autêntica quando professa e proclama a misericórdia do Salvador da qual ela é depositária e dispensadora (cf. n.11).

A relação entre a misericórdia e a missão da Igreja está condensada no número 12  e 25 da Bula. “A Igreja tem a missão de anunciar a misericórdia de Deus, coração pulsante do Evangelho, que por meio dela deve chegar ao coração e à mente de cada pessoa...No nosso tempo em que a Igreja está comprometida na Nova Evangelização, o tema da misericórdia exige ser proposto com novo entusiasmo e uma ação pastoral renovada. É determinante para a credibilidade do seu anúncio que viva e testemunhe ela mesma, a misericórdia” (n. 12). Testemunhar, anunciar e professar a misericórdia de Deus é uma urgência para a Igreja (cf. n. 25).

Aqui nunca é demais recordar que testemunho é a correspondência entre Evangelho e vida. Na ordem prática do dia a dia, esta misericórdia deverá ser vivida pela Igreja como solidariedade. Solidariedade é o eixo do projeto do Reinado de Deus. A opção pelo pobre inclúi  o profetismo neste testemunho de misericórdia. O profetismo é o alerta à sociedade para subordinar a dimensão econômica e política à dignidade da pessoa humana. O cerne da ação missionária da Igreja é não condenar mas amar com amor misericordioso.

3.       Uma espiritualidade da misericórdia

Do número 14 a 19 é proposta como que uma “espiritualidade da misericórdia” com algumas indicações práticas para se vivenciar o jubileu. Por espiritualidade se entende aqui um modo de seguir Jesus na vivência do Evangelho.

a) Peregrinação como caminho e sinal de conversão

O papa indica a peregrinação para se chegar à Porta Santa, como sinal peculiar do Ano Santo.  A peregrinação “será sinal de que a própria misericórdia é uma meta a alcançar e que exige empenho e sacrifício” (n. 14). Existem etapas para esta peregrinação: não julgueis, não condeneis, perdoai (cf.Lc 6,37-38). É uma proposta de conversão pastoral na linha da misericórdia, abrir o coração àqueles que vivem nas periferias existenciais, sair da indiferença e cuidar das feridas (cf. n. 15).

Reportando-se ao capítulo 25 de Mateus o papa repropõe a todos, as obras de misericórdia tanto corporais como espirituais. A partir do episódio da pregação de Jesus na sinagoga de Nazaré (Lc 4) o papa propõe que se leve consolação e libertação aos irmãos (cf. n. 16).  Nesta mesma linha de reflexão o papa Francisco escreve na Evangelii Gaudium: “A misericórdia para com os famintos, os pobres e os que sofrem é a chave do céu” (EG n.  197).

b) Vivência do Perdão

O perdão aparece aqui como componente da misericórdia divina e vértice da oração cristã. É a redenção vista na ótica do perdão. Os números 17,18 e 19 são como que um apelo à prática do perdão e do sacramento da misericórdia, com um apelo especial a vivê-lo com mais intensidade na quaresma deste Ano Santo, em especial através do sacramento da Reconciliação. Recomenda-se a todas as dioceses, a iniciativa das “24 horas para o Senhor” a ser celebrada na sexta-feira e no sábado anteriores ao IV Domingo da Quaresma: “Com convicção, ponhamos novamente no centro o sacramento da Reconciliação, porque permite tocar sensivelmente a grandeza da misericórdia”(n. 17). O papa destaca; “Não me cansarei jamais de insistir com os confessores para que sejam um verdadeiro sinal da misericórdia do Pai... Nenhum de nós é senhor do sacramento, mas apenas servo fiel do perdão de Deus” (idem n. 17).

O papa comunica que na quaresma do Ano Santo o papa enviará os “missionários da misericórdia”, sacerdotes a quem ele dará autoridade para perdoar mesmo os pecados reservados à Santa Sé e pede aos bispos que os convidem e acolham (cf. n. 18). Expressa o desejo de que a palavra do perdão possa chegar a todos e a chamada para experimentar a misericórdia não deixe ninguém indiferente, em especial os corruptos (cf. n.19). Enfim, o papa  quer mostrar que o coração da ação missionária da Igreja é o anúncio da misericórdia como boa notícia.

c) Justiça e misericórdia

Em seguida, a Bula passa a considerar a relação entre justiça e misericórdia: “Neste contexto, não será inútil recordar a relação entre justiça e misericórdia. Não são dois aspectos em contraste entre si, mas duas dimensões duma única realidade que se desenvolve gradualmente até atingir o seu clímax a plenitude do amor” cf. (n.20). O papa reflete a partir de várias passagens bíblicas para concluir que a justiça de Deus culmina no seu perdão. No número 22 fala das indulgências, que no Ano Santo adquire uma relevância particular, mas não especifica de forma detalhada sua prática, como foi feito pelo Papa João Paulo II na Bula do Ano Santo do Ano 2000.

Enfim, é ressaltado que a misericórdia possui uma valência que ultrapassa as fronteiras da Igreja relacionando-se com o judaísmo e o islamismo os quais a consideram um dos atributos marcantes de Deus (cf. n. 23).

Conclusão

A Bula volta-se finalmente para Maria como mãe do rosto da Misericórdia que é seu filho Jesus. Ela é aos pés da cruz testemunha privilegiada da misericórdia: “A mãe do Crucificado Ressuscitado entrou no santuário da misericórdia divina, porque participou intimamente no mistério do seu amor” (n.24).

Podemos concluir que esta Bula quer nos levar por um caminho que se inicia e conclui com a misericórdia. Poderíamos dizer que o Evangelho é o coração da Sagrada Escritura. As bem-aventuranças como o coração do Evangelho. O mandamento do amor como o coração das bem-aventuranças e a misericórdia como o coração do mandamento do amor. “O segredo mais íntimo de Deus é sua misericórdia” (S. Vicente de Paulo).

Em uma economia sem coração, em meio à cultura da morte e da globalização da indiferença a humanidade clama por misericórdia e a Igreja deve saber oferecê-la. Interpretando o teólogo Paul Endokimov que escreveu que a beleza salvará o mundo, podemos dizer que a misericórdia é a beleza do rosto do Pai manifestado em Jesus Cristo: misericordiae vultus.